Entrevista com diretor do Flamengo, Marcelo Vido







Não tem sido fácil a vida de Marcelo Vido nos últimos dias. Gerente de Marketing e Novos Negócios do Minas Tênis Clube, um dos mais tradicionais e estruturados clubes do país, o ex-jogador da seleção masculina de basquete aceitou o desafio para se tornar o Diretor Executivo do Flamengo na nova gestão do clube do Rio de Janeiro eleita no final de 2012. Acertou com Alexandre Póvoa, vice-presidente, em 22 de dezembro do ano passado, dois dias depois, em pleno Natal, foi conversar com Sergio Bruno Zech Coelho, presidente minastenista, e desde 14 de janeiro tem trabalhado incessantemente para tentar organizar e planejar os próximos anos do Flamengo.

Morando no Leblon, perto da sede da Gávea, Vido, que garante ter colocado os salários dos funcionários em dia (os CLT), tem feito reuniões diárias com Póvoa a partir das 7h30 e não tem hora pra sair do escritório (mesmo assim ainda arruma tempo para ler os livros "O Lado Humano do Sucesso", do vice-presidente da Volvo Carlos Morassutti, e "A Menina do Vale", que conta a história de Isabela Pesce, que faz sucesso no Vale do Silício). Ontem ele anunciou o fim de mais duas modalidades esportivas de alto rendimento (judô e ginástica olímpica – antes fora a natação), mas manteve o compromisso de investir forte no basquete. Conversei com ele sobre o desafio na nova empreitada e os objetivos do Flamengo em uma entrevista longa e bastante esclarecedora. Espero que gostem.

BALA NA CESTA: Com quase dois meses de cargo, queria que você falasse um pouco sobre este começo no Flamengo. Está sendo mais complexo do que você esperava?
MARCELO VIDO: Comecei no dia 14 de janeiro e este período até agora foi muito importante para que pudesse fazer uma análise de todo esporte olímpico do Flamengo, com exceção do Remo, que tem uma vice-presidência a parte devido ao estatuto. Com isso entendi a estrutura, toda a parte de escola de formação, de base. Tivemos muitos problemas em relação a infraestrutura e condição da ginástica artística, por exemplo. Além disso a piscina teve um problema que todos souberam (foi interditada) logo no começo das aulas. De todo modo, no momento o mais importante é aprovar o orçamento de 2013 para que possamos navegar em águas mais tranquilas neste ano e para que tenhamos organização e planejamento para os que estão por vir. Sobre estar sendo mais difícil ou não, olha, quando saí do Minas eu sabia que estava saindo de um clube absurdamente organizado, estruturado e que demorou pelo menos uns 15 anos para chegar onde chegou e que o Flamengo, até pelas informações que eu lia, precisava ser repensado. Estou animado, feliz e estamos no caminho certo, não tenho dúvida disso.

BNC: Da análise que você citou, qual foi o diagnóstico que você extraiu? Algo te surpreendeu?
MV: Vamos dividir em duas áreas. A primeira em escola de formação. Para um clube social, ela é de vital importância. Pode ser que o clube nem tenha uma equipe adulta de natação, como deixamos de ter no Flamengo, mas jamais poderá deixará de ter uma escolinha de esporte. Primeiro porque está no escopo do clube, está na obrigação com o sócio. Depois porque é uma baita fonte de receita. Por fim, é a preparação para os times de base do clube. Ao mesmo tempo, você não pode dizer que o trabalho que estava sendo feito aqui era mal feito. O Flamengo teve atletas na Olimpíada, sempre teve as modalidades fortes, vários atletas formados aqui. Pode melhorar muito, mas era bem feito. Pode evoluir na auto-estima dos funcionários, na qualificação, na estrutura. A base tem que ser forte, tem que ser formativa, tem que ser melhor estruturada aqui.

BNC: Entrando um pouco no basquete, vi que o Flamengo assinou um contrato com a Loterj de três meses, R$ 100 mil/mês, R$ 300 mil no geral. É um valor bacana, mas a folha de salário do Flamengo está girando em R$ 400, R$ 450 mil. Isso leva a crer, obviamente, que quem sustenta o basquete do clube é o futebol. Minha pergunta é muito clara: como fazer para que a modalidade seja autossustentável em pouco tempo, para que não dependa da verba de outros esportes? Já emendando: um Flamengo em arroxo orçamentário tem capacidade para absorver uma equipe de R$ 4 milhões/ano?
MV: Boa pergunta, Bala. Começando pela Loterj. Estamos trabalhando em sintonia com o departamento de Marketing, e um conceito do futebol que estamos aplicando aos esportes olímpicos é: teremos três marcas na camisa. A principal, no peito, uma nas costas e uma no braço. Este é o formato. Cada posição tem uma cota. A primeira cota, vendida para a Loterj, foi para três meses promocionalmente por este valor. Mesmo assim não fecha a conta, sabemos. Já estamos trabalhando, por isso, para a próxima temporada e já estamos buscando recursos para isso, pode ter certeza. Estamos trabalhando para que o basquete tenha recursos próprios, consiga ser autossustentável, que é o nosso desejo. Tivemos esse começo de ano complicado, depois o Carnaval e agora é que estamos batendo na porta das empresas para tentarmos esse patrocínio já para a próxima temporada.

BNC: Outro ponto que gostaria de abordar é a questão dos ingressos. Fiz um estudo no blog e para a minha surpresa o Flamengo não lidera o quesito no NBB. Para quem tem ido aos ginásios, é uma surpresa grande. Como vocês estão lidando com isso no clube?
MV: Para começar, a gente tem um projeto de ter um ginásio novo do Flamengo na Gávea. Está em fase de projetos, eu já vi o projeto e é bem bacana mesmo, para que tenhamos o nosso espaço de 3.600 lugares em pouco tempo (a previsão está para 2016). Enquanto não tem essa solução jogamos no Tijuca e estamos com uma reunião marcada com a Secretaria de Estado para conversarmos a respeito do Maracanãzinho para os playoffs e, quem sabe, em uma eventual final do NBB em 1o de julho. Ainda há a possibilidade de jogarmos alguns jogos dessa fase em outras cidades, notadamente Cabo Frio. Sobre o Tijuca, o que posso te falar é que queremos ter o melhor controle de acesso, o melhor controle de rendas etc. Temos conversado com o Tijuca e nos últimos jogos já evoluímos muito. O Flamengo não quer receber nada de graça, que isso fique claro. Mas vamos exigir nossos direitos sempre.

BNC: Queria que você falasse sobre o fim da equipe de natação, que foi uma decisão que repercutiu bastante e que gerou muita polêmica (nota do editor: o papo com Vido foi feito no sábado, antes do fim de outras duas equipes – Judô e Ginástica).
MV: A decisão da Natação foi tomada antes de eu assumir em função de três razões bem simples: não havia recursos para pagar, os atletas não treinavam no Flamengo e, por fim, as instalações não eram as ideais. Tanto é que a piscina foi interditada um mês depois. E não foi interditada pela nova gestão, mas sim por um laudo técnico, uma empresa contratada. Agora estamos buscando novas situações. Fizemos um projeto com a Federação Internacional, a FINA, e este projeto está em fase de orçamento e aí sim vamos ver como faremos. Enquanto não se tem o orçamento ficaremos esperando. Pode parecer paradoxal, mas quando você fala em complexo aquático de um clube como o Flamengo você fala em três públicos completamente diferentes: os sócios, que usam a piscina para lazer, as escolinhas e a equipe de natação do clube. Conseguir conjugar isso tudo junto é a missão. Ter o nosso próprio parque aquático seria um grande presente aos nossos sócios e atletas até o final do ano, caso, claro, a gente tenha os recursos para tal.

BNC: Ter salários em dia, até para você cobrar dos funcionários do clube, foi uma condição que você impôs quando da sua contratação?
MV: Não foi uma imposição, mas eu acredito muito nas pessoas que assumiram o Flamengo, o conselho gestor que está comandando o clube atualmente. Da mesma forma que eu penso que não dá pra fazer uma administração sem o mínimo dever do empregador, que é pagar em dia o seu funcionário, eles também pensam assim. Então não é que foi uma imposição. Pensávamos igual neste sentido. O Flamengo sabe que será um ano difícil, pois para se ter tudo em dia em 2013 houve alguns cortes. Não adianta nada eu ter todo mundo sorrindo até julho, e de agosto a dezembro eu não ter dinheiro para pagar. Isso está sendo muito discutido em relação ao orçamento. Esse será um ano complicado, de aperto nos cintos das finanças mesmo. É um ano extremamente difícil, mas que a gente ao mesmo tempo volta a ter credibilidade no mercado, se solidifica, ter valores de uma instituição séria e estes são os principais valores que precisamos resgatar.

BNC: Quando você tomou a decisão de vir para o Flamengo, quais as razões que te fizeram aceitar o cargo? Sua família ficou assustada com a decisão?
MV: Vou te contar uma coisa, Bala. Na primeira reunião que eu tive com o presidente Eduardo Bandeira de Mello (foto), com o vice-presidente de marketing Luiz Eduardo Baptista, o Bap, e com o vice de esportes olímpicos, Alexandre Póvoa, eles me perguntaram o que me faria sair do Minas, uma referência em esporte por uma instituição que se tem muita coisa pra fazer. Dei três motivos: as pessoas que estavam assumindo o Flamengo, sérias ao extremo; a força do Flamengo e o que se pode explorar dessa marca; e por fim a cidade do Rio de Janeiro, que estará no foco do país olímpico nos próximos três, quatro anos. Isso tudo aliado a minha vontade louca por desafios, por coisas novas, por missões que me aparecem e que considero sedutoras. Estava muito feliz no Minas, nem pensava em sair de lá tão cedo, mas veio essa oportunidade e esse desafio enorme. Acabei aceitando e é sem dúvida o maior desafio da minha carreira. Hoje gerencio quatro áreas (Patrocínios, Lei de Incentivo, Formação e Base). Em relação a minha família, há uma história engraçada. Eu conhecia a Luiza, minha esposa, dentro do Flamengo quando nós dois jogávamos no clube. Fui atleta do clube e ela também. Tenho uma história muito bacana com ela, que é minha maior torcedora e incentivadora, e unir tudo isso ao clube é sensacional. Não tem sido fácil porque ela fica em Belo Horizonte e eu aqui.

BNC: Por fim, qual o seu sonho no Flamengo?
MV: Na minha posse eu disse que o Flamengo é tradicionalmente um clube olímpico. Tem remo no estatuto, basquete forte, natação tradicional. Dos grandes do Rio de Janeiro é o que tem mais vocação e tem uma história maravilhosa. Assim como o Minas é uma referência em BH, como o Pinheiros é uma referência em São Paulo, o Flamengo tem que ser uma referência em esportes olímpicos primeiro no Rio de Janeiro e depois no Brasil. A palavra é "excelência". Queremos fazer parte, junto com esse grupo que assumiu, de deixar um legado para o clube, de realmente transformar o Flamengo, que é o clube mais popular do país, em realmente um clube olímpico de peso, um clube organizado, planejado e com excelência em tudo o que faz.

BNC: Pra fechar mesmo: não te dá medo assumir um cargo executivo em um clube de futebol, cuja diretoria pode mudar em três anos?
MV: Eu vejo assim: esse risco existe porque há eleição a cada três anos. Isso é um fato e não dá pra fugir. Mas se todo o planejamento for implantado, não há motivo para, nem com uma eventual troca de diretoria, ser modificadas as áreas que estão sendo criadas agora. Estamos aqui para justamente mudar essa história. É só mostrar competência, nada mais do que isso.


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